Origem do Dinheiro
Migalhas terrestres
Origem do Dinheiro
Migalhas terrestres
Ao começar esse artigo, eu poderia ter ido por dois caminhos. O primeiro caminho seria o caminho do acadêmico, caminho mais técnico; caminho que explora as nuances dentro desse tema, buscando se especializar. No entanto, eu não sou acadêmico e muito menos um especialista, então outra oportunidade era explorar como lidamos com o dinheiro. Tal caminho também seria ruim para mim e para você, pois talvez não conseguiria alcançar o objetivo que é justamente elucidar de onde vem o dinheiro. Entre dois caminhos ruins, por assim dizer, eu escolho o menos pior, que é o segundo deles. Desta maneira, omitirei a definição de dinheiro. Apesar dos teóricos estarem buscando ainda o que é de fato dinheiro, acho que a maioria das pessoas possui um certo senso do que é o dinheiro. Elas lidam com dinheiro, elas guardam dinheiro (ou pensam que guardam) para comprar coisas, comprar bens e economizam dinheiro para uma situação futura: algo que está por vir. Elas tomam empréstimos e emprestam dinheiro, com ou sem juros, e por mais que as pessoas não saibam exatamente que é o dinheiro, elas têm uma noção da essência do dinheiro. De fato, explicar exatamente a essência do dinheiro seria necessário para falar sobre a origem do dinheiro, pois não se sabe a origem de algo se não sabe o que é.
Agora, buscando elucidar de onde vem esse dinheiro, de onde vem a noção atual do dinheiro, é possível, ou pelo menos eu creio que é possível. Ao final, o leitor poderia me dizer se sabe de onde vem o dinheiro, mesmo que não saiba exatamente o que é o dinheiro. Utilizamos o dinheiro quando saímos de nossas casas de manhã para comprar pão com ovo e um copo de pingado. Nós pagamos com dinheiro e não é isso então o dinheiro? Não é essa nota escrita cinco, dez, duzentos, e quem sabe quando não chegará a nota de quinhentos, que é o dinheiro? Uma pessoa comum na Mesopotâmia diria que não, porque ela não tem o conceito como nós temos: um papel que é utilizado para trocar por algo. Essas pessoas na Mesopotâmia antiga utilizavam um sistema de crédito com registro em argila. Ou seja, vender fiado surgiu antes do dinheiro para pagar a conta pendurada que ficou para outro dia. E se você perguntar então para os povos nativos da Micronésia antes da chegada dos colonizadores se eles aceitariam uma nota de 100 libras, eles provavelmente te chamariam de doido, afinal, para eles o patrimônio eram pedras imóveis, as chamadas Rai Stones. Pedras que você não consegue mover do lugar, que você não consegue carregar consigo, essas pedras imóveis apresentavam uma forma primitiva de dinheiro com valor baseado em raridade e representação cultural, mesmo que não fossem fisicamente movidas, ou seja, quando você transferia a propriedade, a propriedade não estava atrelada a uma posse material da maneira que entendemos atualmente, mas naquela cultura eles entendiam que a pessoa ou a família estava na posse de algo importante, logo a pessoa tinha um certo patrimônio. Indo para outros cantos do mundo como na Grécia 700 anos antes de Cristo, temos o surgimento da cunhagem (a prática de evitar coin clipping só veio tardiamente) onde surgiram as moedas de metal padronizadas tal como vemos hoje (ao menos em aparência). Um grande avanço tecnológico delas foi justamente permitir o comércio a partir da divisibilidade do metal e da portabilidade. Diferentemente das pedras da Micronésia, um simples grego colocaria essas moedas no seu bolso e viajaria para combater outros gregos.
Pode-se perceber que tanto na Mesopotâmia antiga quanto na Micronésia quanto na Grécia antiga, cada um tinha um conceito de dinheiro diferente — talvez não a essência do dinheiro fosse diferente, mas como a sociedade lidava com dinheiro.
Prosseguindo um pouco no tempo para a Idade Média, se você fosse até Florença e pedisse um empréstimo a juros para financiar sua casa e pagar durante um tempo maior que você pode conceber em sua imaginação, o cidadão Florentino iria negar pois é pecado de usura. Ora, é pecado explorar o outro cobrando juros em cima do ouro, ouro tal que aparentemente conservava o seu valor e as suas características (propriedades) através do tempo. Caso você precisasse de dinheiro seria necessário então recorrer aos banqueiros de Veneza que vieram da terra prometida. Eles não consideravam um pecado emprestar dinheiro a juros para os estrangeiros, para aqueles que não são do seu povo, e a partir disso então se estabeleceu um mercado: o mercado do empréstimo a juros. Claro este não é o ponto essencial na questão e por hora deixaremos o questionamento da licitude em cobrar juros para as devidas autoridades. Mas veja bem, autoridade aqui não significa aquele que poderá legalizar a agiotagem para seus amigos e proibir a de seus inimigos, legalizar essa agiotagem por meio dos seus bancos e suas instituições financeiras, mas sim a Autoridade de facto.
Com o crescimento da agiotagem em Veneza, nos seus bancos e seus banqueiros, houve um crescimento econômico e os então católicos em Florença acharam uma brecha na lei santa. O Banco dos Médici passou a comprar notas promissórias por um valor abaixo do seu nominal. Ou seja, suponha que Marco, um simples vendedor de camisas, precisava de um investimento para fabricar suas camisas. A maneira de fazer isso era prometendo pagar uma certa quantia de dinheiro a um fornecedor de lã (Luca) após fabricar as camisas. Mas Luca gostaria de receber o dinheiro no momento do fornecimento da lã ao invés de esperar um prazo temporal. Para fazer isso, ele levaria essa nota promissória até o Banco dos Médicis e o banco pagaria um valor abaixo da nota promissória, de tal maneira que, efetivamente, Marco pagaria o valor previamente acertado para o possuidor da nota promissória e o banco lucra a diferença entre o valor acertado e o valor que pagou ao possuidor da nota. O Banco dos Médici durou até os reis precisarem de dinheiro para financiar as guerras. Os reis começaram a emitir promissórias de pagamento aos bancos em troca de dinheiro para financiar as guerras (efetivamente um empréstimo) e perceberam que eles simplesmente poderiam não pagar esse contrato. O calote foi ao mesmo tempo a ruína dos Médici e o florescimento da tática de endividamento para sustentar guerras.
Não tão longe dos bancos dos Médici existiam as grandes feiras dos comerciantes. Nessas feiras, os comerciantes tinham uma quantia em ouro depositada e faziam todo seu comércio anotando as entradas e saídas. Ao final da feira, era feito o balanço de contas e cada comerciante fazia o pagamento final do que devia. É possível verificar que, em diferentes épocas e em diferentes situações, o dinheiro baseou-se numa confiança tanto em pessoas quanto em instituições, quanto à confiança no futuro, pois esperava-se conseguir um dinheiro no futuro com certo valor.
Na idade moderna, elevou-se para a noção de papel de ouro. Sim, digo o papel de ouro, pois ele valia ouro, e era chamado de cédula restituível. Este mesmo papel seria levado aos bancos e trocado por ouro, tal como ouro fosse. Assim surge o padrão ouro. O acordo de Bretton Woods, firmado após a Segunda Guerra Mundial, fixava o valor do dólar ao ouro e outras moedas a uma taxa de câmbio fixa em relação ao dólar, o que efetivamente significava que, apesar dos grandes poderes das instituições, elas não conseguiriam criar ouro, tal como os alquimistas queriam, e o valor estava ainda atrelado a algo natural.
No entanto, Nixon precisou contratar alquimistas e criar ouro. Nixon, na Guerra do Vietnã, precisava de investimentos grandiosos, ou melhor, indecorosos. Em prol do bem maior, dizia ele, era necessário abandonar o sistema tradicional e seguro para garantir a liberdade de uma nação que lutava por sobrevivência. Ora, os grandes, grandiosos, sabiam que, retirado o ouro, retirado o alicerce natural do dinheiro vigente, era necessário ter outro, e assim colocaram a restrição: comercializar petróleo em dólar, o chamado PetroDollar. Se, por acaso, ao ligar a TV, um americano comum já estava acostumado com guerras travadas contra os terroristas, por outro lado, os verdadeiros terroristas não estavam diretamente na guerra, eles haviam conseguido fazer o que os alquimistas de outrora não conseguiram: gerar riqueza aparente e enriquecer facilmente. A partir de 1971, o americano passou a conhecer o que é a inflação, o que é perda do poder de compra, o que é ter que vencer o mercado para enriquecer. A simples quebra da tradicional moeda de ouro ocasionou dificuldades nunca antes vistas para um americano comum. Não quero aqui lidar com sensacionalismo, nem mesmo negligenciar todas as lutas feitas anteriormente, mas fato é: um americano comum não pode mais, com seu emprego comum, ter uma vida comum.
Essa nova era do dinheiro não está mais firmada sobre os minerais (peço desculpas aos geólogos), mas sim sobre acordos comerciais que fogem das mais simples leis da física. A partir disso, há de se questionar se o dinheiro que utilizamos é real. Você poderá dizer que, claro, afinal, eu e você utilizamos ele para comprar pão na padaria todo dia. Como não seria real? Pois bem, entregue essa sua nota de papel para o seu tataravô quando ele estava com 20 anos de idade. Se você for um americano, o seu tataravô estará muito rico. Caso você seja um brasileiro, o seu tataravô nem saberá do que se trata e pensará que ele se trata de uma moeda de país estranho; talvez perguntará se o peixe representado no papel é o peixe que você consegue comprar? Fato é que ele é tão real quanto você consiga utilizá-lo. Mas, um dinheiro que não serve para ser guardado, um dinheiro que não atravessa fronteiras, um dinheiro que na era digital é facilmente controlado, um dinheiro que perde valor simplesmente por existir, não passa de um conto de fadas. Conto de fadas este, muito real, que dezenas de milhares de adultos acreditam.
O sistema atual, portanto, necessita de uma confiança naquele que emite o dinheiro. Em qual aspecto se dá essa confiança? Esta confiança se dá primeiro no poder da instituição, afinal, ela é a única que pode emitir dinheiro neste local. Em segundo lugar, esta confiança vem da necessidade da instituição continuar a existir ao longo dos anos, mesmo que as evidências demonstrem que os donos dessas instituições estão cada vez mais preocupados somente com seu próprio enriquecimento à custa dos demais. Em terceiro lugar, essa confiança vem da falta de algo melhor. Se perguntassem a um carroceiro do ano 1700 o que ele precisava para andar mais rápido, ele diria "ora, preciso de cavalos melhores". É difícil conceber em nossa imaginação algo que não existe. Portanto, se eu lhe perguntasse o que você precisa fazer para enriquecer, ou melhor, como tornar o dinheiro melhor, talvez você me diria que bastaria não ter inflação, ou fazer um dinheiro que aumentasse de valor ao longo do tempo. Um homem que está acostumado a cavar com pás e nunca viu um carro dificilmente conceberá uma retroescavadeira para solucionar suas dificuldades. E nem tente falar para ele que ele deverá aprender a utilizar a retroescavadeira para ter uma vida melhor, é provável que, ao não conseguir operá-la, ele coloque a culpa na máquina e não no maquinista nem no engenheiro que deveria ter feito ela mais fácil de utilizar.
Nós que estamos acostumados com o sistema de crédito fiduciário, ou seja, o sistema de crédito do conto de fadas, dificilmente entenderíamos um sistema melhor de dinheiro. Como explicar para o seu João e a dona Maria que o dinheiro que eles possuem na sua conta no cofrinho de seu banco digital está apodrecendo ao longo dos anos ao invés de florescer? Como explicar que o dinheiro que está nos bancos na realidade não passa de uma irrealidade? Como deveria eu explicar que caso todos os homens buscassem sacar seu dinheiro em suas notas de papel corrompíveis pelo tempo, os bancos não deixariam executar, pois o dinheiro não existe? Como explicar que o seu dinheiro não é seu? Mas, vou além: como conceber o antídoto para o sistema monetário global? Penso eu, ser impossível. Em minha pequenez, buscando vencer o mercado para dar uma simples condição de vida a uma futura família que nem sei se terei, jamais seria capaz de conceber o Bitcoin.
O Bitcoin é visto por uns como uma criação imaculada. Não imaculada no sentido verdadeiro da palavra, mas no sentido de que não há nem haverá algo igual devido às condições que surgiu. Se o Bitcoin falhar, dificilmente teremos uma nova chance para recuperar a dignidade sócio-econômica que nos foi roubada pelas mesmas instituições que confiamos a nossa proteção. O Bitcoin, por sua vez, é único. O Bitcoin não é "os bitcoins". O Bitcoin não é uma criptomoeda, ele é a única que poderá servir ao seu propósito tal qual foi criada e concebida. Isso não significa que o Bitcoin ser adotado e utilizado é inevitável. Apesar de existirem muitas barreiras para garantir o Bitcoin como uma moeda de troca com uma reserva de valor e a base monetária global, é possível caso trabalharmos para isso. É de interesse comum, ou melhor, é de interesse do bem comum, que o Bitcoin se torne a base monetária mundial. O Bitcoin possui estrutura, seu protocolo, garante um consenso, uma rede descentralizada é solucionada com a prova de trabalho e o registro das propriedades das moedas é acordado e verificável. Há poucas invenções no mundo que marcam eras. Pode se destacar a roda, o carro que utiliza a roda, a internet, a moeda que utiliza a internet. O Bitcoin, por sua arquitetura, busca combater grande parte do malefício da moeda moderna, isto é, o furto da dignidade de um simples trabalhador.
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