Orate(s)* fratres
Os loucos pós-conciliares
Orate(s)* fratres
Os loucos pós-conciliares
O título deste artigo pode ser um pouco sugestivo caso a pessoa frequente missa tridentina ou tenha lido O Alienista, de Machado de Assis. Quem seriam os meus loucos irmãos? Antes de começar a discorrer sobre isso, quero falar sobre a Igreja em si. A Igreja, como sabemos, é o corpo místico de Cristo, é composta da Igreja militante, a Igreja padecente e a Igreja triunfante. Deixemos as duas últimas de lado e busquemos traços importantes da primeira: sua visibilidade, sua universalidade (catolicidade), sua romanidade e sua apostolicidade. A Igreja Católica é composta pelos que professam a fé católica e sua hierarquia é composta pelo Vigário de Cristo, o papa, os bispos do mundo inteiro, os presbíteros e os leigos, bem como os religiosos. Sua origem foi firmada pelo próprio Cristo na rocha que é Pedro. A primazia de Roma sempre foi reconhecida pelas demais Igrejas católicas e devo aqui salientar que atualmente são aproximadamente 24 as Igrejas compondo a Igreja católica, sendo a Latina (Romana) mais conhecida que as Orientais.
Há diversas maneiras de caracterizar a Igreja de Cristo. Uma delas é sobre os três pilares da fé católica: a tradição passada pelos apóstolos e seus sucessores, o magistério falível e infalível e as sagradas escrituras. Assim como a menor quantidade de pontos necessária para caracterizar um plano geométrico são três, para a Igreja existir, ela necessita dos seus três pilares (sendo a Sagrada Escritura uma consequência dos outros pilares). Deve o cristão buscar esses pilares, e os Santos souberam discernir onde estavam esses três pilares nos momentos de crise.
Os loucos, por sua vez, sempre tentaram remover um desses pilares, ou todos. No passado, os loucos foram Ário, Pelágio, Lutero, João Calvino e todos os hereges que entre si degladiaram. Algo em comum entre todos estes foi que eles tinham a certeza, e não a dúvida. "O louco é o homem que perdeu tudo, exceto a razão", disse Chesterton. Os Santos por sua vez sempre foram homens sensatos. E, para cada doido que surgia, havia também a necessidade de um homem sensato. Essa posição não é original minha, e nem busco ser original, mas sim é a posição chestertoniana.
Houve, portanto, muitas épocas loucas na história da Igreja. Desde um papa exumando o seu antecessor para então excomungá-lo e jogar seu corpo no rio até papas que, em seu magistério falível, declararam ensinamentos errados ou contrários à fé passada pelos apóstolos. Para cada momento de crise, houveram grandes santos que trouxeram bom senso de volta à Igreja. Pode-se citar um São Nicolau que deu um tapa na cara de um herege mesmo antes de ser formalmente um herege, ou um santo Atanásio que, sozinho, combateu os arianos que tomavam conta da Igreja, bem como um Dom Vital que combateu a maçonaria dentro do Império ou uma Santa Catarina de Siena que convenceu o papa a voltar para Roma durante a crise de Avignon.
É interessante analisar agora o claro pelo escuro. A normalidade a partir da loucura. Ao ver uma pessoa catar pedras na rua para atacá-las na lua, um homem comum não se juntará a esta pessoa em sua guerra imaginária. Um outro louco, porém, criará todo o raciocínio para justificar pegar pedras e jogá-las para o alto. Eis aqui um dos traços úteis para reconhecer onde habita a loucura e onde habita a normalidade. São Pio X, um homem, um papa grandioso e com sua enorme simplicidade do campo, soube reconhecer os loucos de seu tempo e os loucos que haviam de vir. Ele fez uma investida contra os modernistas e, ao jogá-los contra a luz, estes correram para o escuro. O Santo Papa conseguiu enxergar que não era possível conciliar o modernismo, "o esgoto coletor de todas as heresias" com a fé católica.
Décadas mais tarde o modernismo floresceria de dentro da Igreja por meio do ecumenismo, da liberdade religiosa, do democrático colegiado de bispos, e do ataque mais brutal que já se viu ao culto de Deus. A loucura daqueles que buscavam adulterar a fé pode ser notada pois queriam colocar o mundo, ou melhor, a fé católica toda e inteiramente dentro de suas concepções errôneas. E contra esses loucos surgiram vários sensatos tais como Dom Ottaviani, Dom Lefebvre e Dom Castro Mayer. No entanto, como tomados por um êxtase e uma falsa noção de obediência, católicos que antes se deixavam guiar pelos três pilares se viram despidos de sua fé antes que pudessem agir. A loucura tomou conta da vida comum. Coisas inimagináveis para o mais progressista dos católicos se tornaram ordinárias; o que antes era ordinário tentaram taxar de extraordinário. A liturgia deixou sua catolicidade para adotar práticas previamente condenadas propostas por Jansenistas, protestantes e arque(te)ólogos. A imoralidade que andava a passos largos na civilização ocidental conseguiu espaço até mesmo dentro do Templo sagrado. A liberdade religiosa, antes combatida buscando reinado social de Cristo e o devido culto a Deus, se tornou agora almejada. O ecumenismo previamente significando o diálogo entre todas as Igrejas subordinadas ao papa, foi desordenadamente adotado como base para um diálogo interreligioso buscando não a conversão dos infiéis, dos hereges, mas sim, uma adaptação da fé católica à realidade do mundo. Abriu-se mão da Verdade em prol do diálogo de múltiplas verdades. Eis a loucura.
Assim como Simão Bacamarte acabou como louco após lutar contra os loucos, aqueles que abandonaram tudo em prol da razão acabaram por enlouquecer de maneira diametralmente oposta aos loucos que combatiam. São esses os sedevacantistas. Não faço aqui um julgamento contra os primeiros sedevacantistas que até tinham certa razão em suas colocações devido ao curto prazo para analisar a realidade diante dos olhos. Falo sobre os sedevacantistas da atualidade que possuem completa certeza de seu posicionamento e negam a própria realidade. Afinal, se de fato a Igreja Católica está nas mãos de poucos bispos espalhados pelo mundo sem uma união, então aparentemente, as portas do inferno prevaleceram e Jesus mentiu. Mas suponhamos que então os sedevacantistas estejam corretos. Caso isso for verdade, eles deveriam ter a obrigação de já terem convocado um concílio e eleito um papa. Ora, seria de extrema irresponsabilidade deixar a Igreja sem um Vigário por tantas décadas. Arrisco dizer que caso Jesus ou nossa Senhora aparecesse para um sedevacantista afirmando que o homem que está atualmente sentado na cátedra de Pedro é de fato papa, o louco diria ser uma aparição do demônio, afinal, não há como ser o papa. Da mesma maneira, apesar de nossa Senhora ter aparecido em Fátima, não houve até hoje a consagração da Rússia ao Imaculado Coração.
Agora, há um ponto em comum entre os dois loucos. Ambos concordam que a Igreja, ao menos visível, mudou. O progressista afirmará que foi necessário que a Igreja se ajustasse ao mundo moderno e não ficasse imóvel em sua tradição. Já o mais tradicional dos tradicionalistas dirá que é impossível a Igreja mudar e caso isso aconteça de fato não é a Igreja católica mas outra Igreja. No entanto, a fé católica deve ser única. A tradição é imutável. Os hereges são loucos. Assim como a virtude é definida como a elevação média entre dois vícios opostos, há de se encontrar no tradicionalismo sensato, a elevação entre os sedevacantistas e os modernistas. Enquanto muitos negam a tradição e outros negam o magistério, é necessário buscar a segurança nos três pilares. Um bom católico não se fechará em seus próprios raciocínios, mas buscará analisar a realidade tal qual ela é. De maneira semelhante ao sacerdote após o ofertório, convido-te a Orate fratres pelos nossos Orates fratres tomando o cuidado e rezando para um dia não sermos nós a termos uma irredutível certeza do entendimento da real realidade.
* ORATES: termo espanhol para loucos * Orate, Fratres: "Orai, irmãos" é o convite do sacerdote após o ofertório e antes da Secreta na Missa de Sempre.
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