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A missa tridentina não é a solução

2026-06-058 min read

Corpus Christi e clareza doutrinal

Muitos podem achar esquisito o título deste texto: “A missa tridentina não é a solução”. No entanto, é exatamente isso. A missa tridentina não é a solução em si para os problemas da humanidade, nem para os problemas da Igreja. A missa tridentina não é a solução para o pecado original. A missa tridentina não é a solução para a degradação moral do clero e da sociedade como um todo. A missa tridentina, por si só, não produz automaticamente santos.

Ora, não é nenhuma surpresa dizer isso. Afinal, os mesmos que acabaram completamente com a missa tridentina, ou tentaram ao máximo fazê-lo, também rezaram a missa tridentina durante boa parte de suas vidas.

A missa tridentina é, sim, a melhor expressão da fé católica romana latina e por isso ela deve ser estimada e exaltada. No entanto, ela não é um colete à prova de balas contra quaisquer erros morais que possam vir a atacar a sociedade. O simples ato de ir à missa tridentina não dispensa uma boa formação dos fiéis, oração, correto cumprimento do dever de estado e espírito de penitência.

Um dos erros das pessoas que começam a frequentar a missa tridentina, e neste caso eu me incluo, é pensar que tudo se resume a ela. É pensar que a solução para os problemas da sociedade é todos rezarem o Credo, comungarem de joelhos e rezarem em latim. Ora, está bem longe disso.

Isso, é claro, é uma boa parte. A catolicidade nas questões litúrgicas, de maneira geral, difunde-se através dos católicos, de suas famílias e da sociedade, construindo uma sociedade cristã. Isso, no entanto, não é um campo protetor, uma bolha contra quaisquer erros como muitos pensam.

Dessa maneira, é importante notar que é possível ter uma comunidade moralmente degradada em um centro tradicional, onde se celebra a missa tradicional, e ter uma comunidade piedosa em um centro de missa nova. Isso não significa automaticamente que a missa nova seja perfeita, claramente, afinal há diversos pontos passíveis de críticas em seus textos e em seu desenvolvimento.

Infelizmente, tem-se uma caricatura do que é ser católico tradicional. Todos têm que se vestir igual, todos têm que andar da mesma maneira, todos têm que fazer tudo igual. Não se pode sair da linha nem um pouco. Isso, aparentemente, vai contra a própria pluralidade de costumes que se desenvolveu ao longo dos séculos. Os costumes locais acabam irradiando e influenciando também os costumes ligados à missa.

Isso é claro na liturgia romana. Os mais variados elementos do rito romano tradicional têm sua raiz nos ritos pagãos romanos: seja o báculo do bispo, o manípulo ou o véu do cálice, que servia para tampar uma oferenda, um presente ao rei ou ao imperador. Tudo isso são elementos de um contexto histórico que foram evoluindo e sendo ressignificados de maneira orgânica, não fabricada. A liturgia deu um novo significado, santificando algo que antes era pagão, mas que foi incorporado no uso litúrgico.

É interessante notar também que outros elementos que hoje achamos extremamente normais (de um ponto de vista católico tradicional), como a batina, só se tornaram obrigatórios ou amplamente difundidos séculos e séculos mais tarde, de maneira bem recente. A origem das vestes sacerdotais foi evoluindo ao longo do tempo também, não sendo a mesma em todos os lugares e em todos os tempos.

Se um São Francisco de Assis surgisse na atualidade, como ele se vestiria? Muito provavelmente de uma maneira simples e penitencial. As vestes com as quais ele se vestia em sua época eram do contexto da própria época. Por isso vemos um santo como Carlo Acutis de calça jeans, bem como diversas outras práticas que se tornaram visivelmente católicas, mas que não eram necessariamente assim desde sempre. Longe de querer rejeitar o hábito religioso, venho trazer uma reflexão. O próprio Santo Inácio de Loyola ao fundar a grandiosa Companhia de Jesus, decidiu não adotar um hábito e buscar o uso da batina para facilitar o diálogo e a conversão dos protestantes que tinham aversão ao hábito religioso. Note que o objetivo não foi se incorporar ao mundo, mas sim, a conversão dos hereges.

Um exemplo de objeto litúrgico incorporado na liturgia mas que não nasceu dentro da liturgia, é o barrete, o chapéu do padre utilizado dentro da cerimônia. Ele também vem de algo que não nasceu exatamente no centro eclesiástico, pois procede do contexto universitário, do contexto acadêmico das universidades italianas, onde se utilizava o barrete. Depois, passou aos acadêmicos sacerdotes e então ao uso na liturgia.

Não devemos cair no erro dos modernistas ou dos ultratradicionalistas, que sobrepõem qualquer regra ao seu próprio julgamento pessoal ou caem em um rigorismo absoluto.

A confusão na Igreja não é exclusividade de um grupo ou de outro. A confusão na Igreja é claramente generalizada. Se sairmos por uma paróquia e perguntarmos a todos os paroquianos o que significa dizer que Jesus está presente na Eucaristia, quantas respostas diferentes não iremos ouvir?

Para onde foi a correta catequese? Será que ela já existiu? Creio que sim. Afinal, uma simples criança de cinco anos pôde responder a São Pio X um catecismo de maneira tão clara que o santo mandou as freiras administrarem a primeira comunhão à pequena criança no dia seguinte, pois havia ali uma clareza doutrinal.

Onde está a clareza doutrinal nos dias de hoje? Frequentemente nos deparamos, em discussões entre católicos, com a seguinte frase: “Ora, essa é a sua vertente do catolicismo”. Mas será que é realmente isso?

Não existe, por assim dizer, em matéria de verdades absolutas, uma vertente dentre várias outras vertentes. Existe somente uma vertente: a verdade. E a verdade é Cristo. Ora, podem existir, sim, diferentes maneiras de aplicá-la, afinal um dominicano e um franciscano são bem diferentes entre si à primeira vista e na maneira de viver o evangelho. Mas se perguntássemos a São Domingos e à São Francisco sobre a doutrina, sobre dogmas de fé, tenho certeza que obteríamos as mesmas respostas finais.

A maioria das discussões que temos seriam muito bem resolvidas se as autoridades eclesiásticas, no exercício do seu magistério, quisessem defini-las de tal maneira. No entanto, é visível que há um esquivamento dessas definições. O porquê, eu não sei. Mas sei que não há clareza doutrinal para os fiéis, para os sacerdotes e para os bispos. Isso é nítido.

É nítido porque as discussões são tantas quanto as pessoas que se dizem católicas. Sempre houve discussão teológica dentro da Igreja, em matérias nas quais podia haver discussão. No entanto, onde antes não havia discussão, agora há todo tipo de discussão.

Se o Papa Urbano II declarou que qualquer pessoa que não cumprisse a penitência na sexta-feira cometia pecado mortal, hoje pode-se discutir abertamente se isso é ou não pecado mortal. Se anteriormente todos sabiam o que era o casamento, hoje os bispos alemães podem discutir o sobre a bênção para determinadas pessoas do mesmo sexo com o Vaticano.

Se antes todos concordavam sobre o que era a presença de Cristo na Eucaristia, tal como revelado nos dogmas de fé, hoje quantos e quantos padres não proclamam heresias? E, se às vezes a heresia não é explícita, como em casos que já presenciei em conversas com padres ou ouvi em homilias, em alguns casos ela é implícita, pela maneira como lidam com a Eucaristia.

Não estou acusando todos os padres de serem hereges. Esse não é o intuito. Mas fica a reflexão: como se trata uma joia preciosa e como se trata a Eucaristia na missa de domingo?

Ora, quantas mulheres não reservam suas melhores joias para usar em ocasiões especiais e tomam todo o cuidado de guardá-las da melhor maneira possível, sem deixá-las jogadas em qualquer lugar, limpando-as após o uso, porque veem valor nessas joias tão especiais? Como nós, então, não devemos buscar dar valor à joia que é Cristo na Eucaristia, que é o próprio Cristo? Não com escrúpulo, claro, mas dando o devido valor, o devido cuidado e o devido amor neste santo dia de Corpus Christi.

Quantas pessoas não têm a fé abalada, ou nem acreditam que Jesus está verdadeiramente na Eucaristia, porque ela é dada de maneira tão descomprometida, como se fosse um simples pedaço de pão?

O dever de um bom católico é orar e fazer penitência. Sim, este é o dever de um bom católico. E o dever de um bom pastor é guiar e proteger suas ovelhas.

Oremos sempre pelos nossos bons pastores, peçamos bons sacerdotes e docilidade. Peçamos sempre a intercessão de São Pio X, o papa da Eucaristia.

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